terça-feira, 10 de dezembro de 2024

A educação e as memórias afetivas ou Palavra quando acesa, não se queima em vão!

 



Dedicado a Patrícia Helena Pessoa



Eu nunca pensei em ser professor quando fazia graduação. Até imaginava ser professor universitário, mas só aos poucos a dimensão da docência bateu em minha porta nas discussões de reformas curriculares que lá pelos idos do FFHHCC começaram a ser debatida a LDB e e a ideia de desmembrar Geografia da Licenciatura do Bacharelado, ideia de tronco único e etc.

Depois se discutia a didática e pedagogia do ensino superior que salvo raríssimas exceções nenhum parecia muito preparado para isso. Tacava-se artigos e livros e se debatia para depois fazer provar ou outros artigos. Nas disciplinas eramo formados como se dali sairíamos intelectuais da geografia e cientistas. Em verdade até hoje a maior empregabilidade é para os licenciados.


Em 2002 eu me formei em licenciatura e simultaneamente entrei no mestrado na UFPE e ainda era o governo FHC que tinha pouca verba para bolsas.


Na primeira reuni~]ao com o coordenador do mestrado deu vontade de desistir do mestrado. Como eu iria morar em Recife sem bolsa?


Por toda minha graduação eu tive bolsa e no mestrado eu estava sem condições de seguir. Um colega de mestrado que mal me conhecia percebeu meu desalento e bateu em minhas costas e falou palavras reconfortantes.


As condições para ficar em Recife era um galpão destinado a receber estudantes ou realizar eventos temporários. Com R$40,00 eu gastava com passagem, fotocópias e me dava direito de pagar um PF por semana. Noutros dias eu improvisava a comida.


Foram seis meses de aperto e a única solução foi ir para a sala de aula. Dai veio o medo retumbante da docência. Eu que era todo empolgado com a geografia crítica, com a pedagogia da autonomia, com a crítica à Macdonaldização da educação e que falava do currículo oculto com toda gritaria raivosa e não sabia ministrar uma aula sobre população ou relevo que prestassem.


Nas disciplinas didáticas e pedagógicas universitária nada era feito para pensar no estudantes das escolas.


Fiz como muitos e pedi orientação de amigos já professores. Na época as editoras de livros nos doavam as coleções e dali preparávamos aulas com os livros adotados na escola e adicionava outros conteúdos para complementar. Não, nada do que aprendi na universidade eu conseguia levar para os estudantes. É como se a licenciatura da universidade não servisse para ser utilizada nem na universidade e nem em lugar nenhum.


Em 2003 foi o primeiro ano de docência escolar. Cheguei em 2004 a ter mais de 700 estudantes em 3 escolas, IFPB (antigo Cefet) e na UEPB. Eu dormia pensando em aula, acordava preparando aula e terminando o mestrado.


No entanto eu sofria muito com a a sociologia da classe. Algumas turmas tinham rejeição e em outras o jovens não tinha objetivos. Quase perco empregos importantes. A sorte para 2004 é que muitos estudantes que ia ingressar na UFPB e UEPB tiveram boas notas em Geografia e este sucesso reputaram às minhas aulas malucas.


Já não dou aula em escolas desde 2004 e ainda hoje tenho estudantes que me procuram e que relatam o papel de minhas aulas na formação deles.


Só que o que mudou em minhas aulas de 2003 para 2004 e 2005 foi que eu passei a ser mais afetuoso, mais preocupado com o bem estar e com uma pedagogia mais palpável que comecei a chamar de anarquista e que hoje sei que era apenas uma pedagogia centrada no estudante.


Neste dias uma ex-estudante que tive, Patrícia manda uma mensagem e no diálogo diz da importância para ela daquela minha pedagogia densa, mas amorosa com a inteligência delas. Dessas 700 pessoas e nem sei quantas classes tinha, mas me lembro que eu fiz 14 aulas de campo em um ano. Do jeito possível, de ônibus coletivo, no final de semana e onde a maioria podia se deslocar.

Há até um texto aqui que você irão gostar de ler desse período (http://educanarquista.blogspot.com/2014/04/prova-sobre-liberdade-nao-prova-nada-e.html) .


Patrícia trouxe de sua vida que aquele momento eu fui importante para ela abrir os olhos e ampliar seus horizontes. De fato eu era em 2004 e 2005 um professor apaixonado e com muita conexão com adolescentes. Minhas aulas eram citadas, minhas ocorrências eram elogiadas e os resultados nos vestibulares deram uma fama.


Ano passado uma recém doutora me agradeceu uma aula que levei um cubo de madeira para a sala de aula falar de filosofia e pensamento geográfico em estágio docente de doutorado em Presidente Prudente.


Outro recém doutor da Unesp, me agradeceu uma conversa que tive com ele no 1o semestre da graduação quando os estudantes ficam atordoados sobre o que é a geografia. O acalmei, dei algumas linhas de sobrevivência e hoje publica livros de pensamento geográfico e é professor universitário.


Tenho ex-alunos de várias profissões que guardam por mim um imenso respeito e eu nem media que oferecer uma abertura para o mundo do pensamento para alguém seria tão vital para elas.


Há dias ou momentos na vida que ficamos um pouco em dúvida de nossas decisões e de repente vem uma mensagem como de Patrícia que na época tinha perto dos 15 anos e ali despertava nela um gosto pelo pensamento. Já vai lá 21 anos e essa já mulher vem me dizer que eu fui um dos divisores de sua vida. É! Palavra quando acesa não queima em vão! Diz a poesia.


Eu creio que muito dos meus amigos professores tem dessas histórias de gene que passou por eles e disse: Você mudou o rumo de minha vida!


Agradeço a vocês todos e todas agora que vez ou outra trazem para mim uma resposta de que valeu a pena aquela dedicação.


Obrigado